Papo de brother
Pois e né, “tipo assim, na boa”, eu nunca pedi pra ter nascido, mas meus pais, dois favelados sem noção, não pensaram no que daria seus amassos atrás da casinha da vovó no alto da favela. O impensado, é que em aquilo em alguma hora resultaria em algo, a ser chamado de humano.
Na verdade sou tão revoltado, que nem sei se sou desse planeta. Batendo a real pra você meu “brother”, minha vó conta que papai é traficante pesado e o maior assassino aqui do Rio .
Agora pense aí e vá imaginando: eu, o moleque não planejado, o maior rejeitado do povoado, só pra ter uma ideia, onde eu chego eu escuto alguém dizer:
- Pessoal ,vamos raleando, cada um saindo na sombra!
Outro dia fui numa igreja que fica há uns 4 quarteirões da casa da vovó. Chegando lá o cara da portaria, todo de terno e gravata, parecendo os segurança do Obama, disse:
- “Ae” meu irmão? Pra entra aqui tu tem que deixar sua arma comigo.
Olhei pra ele e apontei a arma no nariz dele e disse:
- “Ae”? Pra começar não sou teu irmão cara. E se “tu” não deixar eu entrar com minha vovozinha, garanto que hoje tú não vai ver o brilho das estrelas e amanhã tú vai estar debaixo de 7 palmos de terra. E aí? Vai encarar? Ou vai deixar eu entrar? Seu segurança internacional!
Mano de Deus, o cara olhou pra mim num espanto! Nessa altura minha vó já gritava pelo amor de Deus pra eu num apagar o cara.
Eu disse a ela:
- Fica relax minha coroa, foi só um susto de nada.
E cai na gaitada, entrei na igreja sorrindo. Ate me transformei, quando olhei no banco das “mina”. Nossa! cada uma mais ajeitada do que a outra. Fiquei todo “piradão”!
Cheguei todo malandro e sentei logo na frente. Uma das “mina” veio e me cumprimentou dizendo:
- Seja bem vindo e volte sempre.
Velho de Deus! Juro que nunca acreditei nessa droga de amor, mas quando a garota segurou minha mão eu tremi na base, fiquei todo bobão,
Vovó disse:
- Ei moleque, fecha a boca se não a baba vai cair.
Cara, daquele dia em diante senti minha vida se transformar. “Pô”, velho, todas as noites eu sonhava com a “mina”.
Outro dia, já no fim da tarde, eu tava todo doidão, tinha acabado de fumar e tava caído na escadinha da favela quando escutei uma voz bem distante dizendo:
- Caio? Oooo Caio? Levanta meu filho!
Olhei pra cima, era vovó. Pensei :
- Meu Deus essa velha não me deixa em paz!
Deitei a cabeça de novo entre minhas pernas e escutei vovó de novo, dessa vez seu chamado veio com uma passada de mão no meu cabelo :
- Caio? Levante-se meu filho. Tem visitas lá em casa!
Levantei no maior nervo do mundo e disse:
- Quem é que ta lá?
Antes que ela respondesse eu continuei:
- Bem que poderia ser a morte né, velha chata dos infernos!
Vovó não desistiu de mim, abaixou a cabeça e disse:
-Vamos meu filho! As visitas estão nos esperando.
- Tudo bem coroa já to indo!
O “meu” levantei de lá na maior sede tinha um resto de água da chuva dentro de um pneu velho, num pensei duas vezes. Usei minhas mãos e saciei minha sede.
Ah “velho” tu pensa que e fácil essa vida de malandro? Então errou pois e a maior furada.
Segui pra casa da vovó, cheguei la tinha um bando de jovens desocupados sentado no sofá, cada um com um livro de capa preta que chamavam de bíblia.
Fiquei parado na porta e disse:
-e “ae”? seus pivetes? “Tão querendo o que”?
-Aqui num tem droga pro “ceis” não!
Nesse instante uma “mina” levantou do sofá que ficava do lado la janela e disse:
-não Vinhemos buscar nada de você, estamos aqui para depositar todo nosso carinho felicidade e confiança em você, queremos que você faça parte de nossa comunidade rumo a Cristo!
-Cara de Deus, sabe quem era a “mina”?
Era aquela que vi outro dia na igreja da vovó. Meu coração de novo quase saiu pela garganta. E eu de novo fiquei sem noção!
Fizeram todo ritual deles, cantaram, fizeram orações, e eu ali calado como uma múmia.
No outro dia o efeito das drogas passou, vovó me contou que eu tava imundo feio fedido tirando onda com as visitas, foi então que parei pra refletir que minha liberdade num tem a ver com depender de todas as drogas, vícios ou virtudes do mundo. Liberdade é poder escolher.
Eu um jovem de apenas 22 anos de idade senti minha vida sendo transformada aos poucos, não pelo fato de estar frequentando a comunidade de jovens cristãos, e sim por que escolhi viver, e isso e o mais importante.
Hoje já não tenho vovó aqui perto de mim, ela me deixou quando um “filho da mãe” matou ela por causa de 15 reais quando ela voltava da padaria.
Minha felicidade se concretizou o ano passado, casei com a “mina” da igreja da vovó tenho 2 lindos filhos, e graças a Deus sai do mundo do crime.
Mas infelismente nunca conheci papai nem mamãe.
-Mas vamos indo embora, já to atrasado pro trabalho!
-Valeu meu velho, por me escutar!
-Nem precisa agradecer, estarei aqui sempre.
-Vai na sombra!
-falou!

3 comentários:
Talita,
Seu texto apresentou uma evolução muito interessante. É tocante a mudança do jovem com o contato com a verdade bíblica. O conto, apesar de possuir um vocabulário "precário", não padrão, acabou por enriquecer o texto, porque mostra seu domínio socio-comunicativo, porque houve adequação do discurso e do próprio texto para o qual foi dirigido. Em outras palavras, apesar de o texto não ter sido escrito no padrão de nossa língua, cumpre o papel desse tipo de gênero e você cumpriu o objetivo, fazendo o texto ter sentido.
A imagem foi muito bem colocada, mas muito bem escolhida mesmo. O conto narra acontecimentos passados, só que no presente. E no presente o narrados já está com a vida feita, mudada. Quem vê isso imagina que deveria haver a imagem de dois sujeitos conversando e ao fundo a imagem de uma favela ou bairro mais pobre, o que não aconteceu com seu conto. Percepção intra e extratextual muito grandes.
Texto bom!
Muito bom texto o desenrolar dos fatos fico interessante, e a utilização da linguagem coloquial direcionou o texto pro plano da realidade, e isso fico legal. Grande abraço e muito sucesso!
Incorporando a linguagem do seu texto, como diria o personagem principal..vai na fé continue escrevendo, pois você faz isso muito bem,possui muita facilidade e sabe usar as palavras...parabéns.Gostei muito do texto, muito criativo com uma estoria bastante interessante e divertida.
Postar um comentário