E havia o doutor Salomão, juiz de direito, garboso de até hoje ter resolvido mais de dois mil cento e sessenta e sete casos em menos de duas horas, pomposo porque destes tantos casos, apenas três precisaram ser arquivados, e a partir de então seu lema era resolver qualquer caso em duas horas ou menos. E isso, dia a dia era feito em sua jurisdição, atendendo às vezes até quinze casos por dia.
Aconteceu que, certo dia após o almoço, estava o doutor Salomão sentado em sua poltrona de couro de vaca antigo quando chegam duas mulheres discutindo, com a voz às altas, nos tapas mesmo, e logo atrás delas, um assistente social com uma criança no colo, de uns dez dias, talvez, que para aprofundar o estardalhaço, chorava mais alto que as duas mulheres gritavam.
O juiz, não gostando daquilo, solta um berro solicitando silêncio. Ao que a primeira mulher, apavorada, reclama:
- Doutor Salomão - ele já era conhecido em todo o distrito, e, portanto, tratado pelo título e o nome. - Tive meu filho há pouco mais de uma semana, e esta mulher aqui do meu lado, ordinária, alega que o filho é dela.
A essa altura o magistrado já pusera seu cronômetro a funcionar, julgando que resolveria o caso em menos de duas horas.
A segunda mulher, indignada, pôs-se a bodejar: "Não, não, a criança é minha, eu sou a mãe, veja, doutor Salomão, como ele é parecido comigo"- e pede para a assistente levar o bebê até o juiz.
A assistente social, dos braços já cansados, põe o bebê sobre a mesa abarrotada do juiz e esclarece:
- Senhor, a questão é que esse bebê tem dez dias de nascido, e por incrível que pareça, consta nos autos da maternidade que as duas tiveram um bebê no mesmo dia e hora, mas um dos bebês foi sequestrado e ficou este. Não sendo possível realizar a identificação de qual mãe é a verdadeira, nós trouxemos o neném aqui para o senhor julgar o caso.
O Salomão, calmamente, propõe: "Nada mais simples, o bebê tem alguma marca de nascença que se pareça com outra marca da mãe?", ao que a primeira mulher mostra uma pinta no bumbum do bebê e, mostrando o próprio, prova que tem uma pinta igual. Não se dando por vencida a segunda mulher abaixa a saia, mostrando as nádegas para o juiz, e havia a mesma marca do bebê e da outra mulher. A assistente interfere:
- Elas são irmãs gêmeas, doutor!
Salomão enruga a sobrancelha, ao passo que a assistente propõe:
- DNA senhor juiz. É a única maneira.
O magistrado enrubesce e atônito, resmunga:
- Jamais - responde olhando para o cronômetro -, só temos mais uma hora e trinta minutos, um exame desses levaria dias. E eu gosto de resolver as coisas em duas horas.
Ele toca então uma campainha. Em instantes aparece dona Margô, a secretária.
- Dona Margô - chama Salomão, tranquilo -, traga por gentileza aquela faquinha que usamos para cortar pão no café da manhã.
Em seis minutos está de volta Margô com a faquinha de serra.
- Corte a criança ao meio. Margô, bem rente, à cintura, e dê uma metade a cada mãe. – Vira-se para as mães e então arremata: "e eu decido quem fica com a parte da cabeça."
Quando a obediente secretária ia desferir o golpe fatal, a primeira mulher aplaude, garantindo ser aquele o melhor modo de resolver a causa, ao que a segunda senhora interpela:
- Por favor, doutor Salomão, dê a criança a ela, mas não mate o bebê.
Salomão, num sorriso largo e venturoso, numa expressão pensativa de sabedoria, então dá o veredicto:
- Ótimo, assim seja feito. Dê a criança, então, à outra mulher, já que esta resolveu, pois agora sabemos quem de fato é a mãe. E agora tudo resolvido, falta sete minutos para o prazo das duas horas, que beleza não? A justiça foi feita!
Doutor Salomão conclui num gesto acenando para as mulheres saírem, com as máximas:
- Agora toca o enterro que a fila anda e o show não pode parar.
MORAL: Juiz justo é aquele que julga com justiça.